VASCONCELOS, Simão de. 1597-1671.

Sobre o autor

O jesuíta Simão de Vasconcelos nasceu na cidade do Porto, por volta de 1597, e morreu no Rio de Janeiro, em 1671. Desembarcou no Brasil em 1606 e frequentou o colégio dos jesuítas da Bahia, tornando-se mestre em artes. Foi lente de teologia, humanidades, escolástica e moral, mestre de noviços, reitor dos colégios da Bahia e do Rio de Janeiro, procurador da companhia — seguiu com o padre Antônio Vieira para Roma, em 1624 — e provincial do Brasil.

Obra(s)

1. Chronica da Companhia de Jesu do Estado do Brasil e do que obraram seus filhos n’ esta parte do novo mundo. Tomo primeiro da Entrada da Companhia de Jesu nas Partes do Brasil e dos fundamentos que n’ellas lançaram e continuaram seus religiosos, e algumas noticias antecedentes, curiosas e necessárias das cousas d’aquelle estado Pelo Padre Simão de Vasconcellos, da mesma Companhia. Lisboa: Na Officina de Henrique Valente de Oliveira, Impressor del Rei N. S., M.DC.LXIII.

2. Noticias curiosas, e necessarias das cousas do Brasil. Pello p. Simam de Vasconcellos da Companhia de Iesus. Em Lisboa: Na Officina de Ioam da Costa, M.DC.LXIII.

Menções ao negro e ao escravo

1.

Um Diogo Martins Cão, o Matante negro por alcunha, foi o primeiro depois dos capitães referidos. E depois deste, o capitão Marcos de Azeredo Coutinho, que trouxe quantidade considerável delas. E por diversos outros tempos fizeram a mesma jornada seus filhos e outras pessoas: porém sem efeito, por terem os tempos cegados os caminhos, crescendo as matas e escondendo aos homens estas riquezas. (p. 51)

E, contudo, vemos por experiência o contrário: porque a mulher branca, de branco pare branco, e de negro mulato; seja quente ou fria a disposição do ventre. Donde se tira manifestamente que não está somente no ventre a virtude do grau do frio, ou calor necessário: se não na virtude seminária, que depende de ambos os gerantes: porque se ambos tem virtude fria, geram branco; se ambos cálida, geram preto; e se um fria, outro cálida, geram mulato de cor entremeia, nem perfeitamente branca, nem preta. (p. 73)

Nesta terra há um grande pecado, que é terem os homens quase todos suas negras por mancebas, e outras livres, que pedem aos negros por mulheres, segundo o costume da terra, que é terem muitas mulheres. E estas deixam-nas quando lhes apraz, o que é grande escândalo para a nova Igreja que o senhor quer fundar. Todos se me escusam que não tem mulheres com que casem. E conheço eu que casariam se achassem com quem; em tanto que uma mulher, ama de um homem casado, que veio nesta armada, pelejavam sobre ela a quem a haveria por mulher. E uma escrava do governador lhe pediam por mulher, e diziam que lhe queriam forrar. Parece-me coisa mui conveniente mandar sua alteza algumas mulheres que lá tem pouco remédio de casamento a estas partes, ainda que fossem erradas, porque casarão todas mui bem, contanto que não sejam tais o que de todo tenham perdido a vergonha de Deus e ao mundo. (p. 203)

Escrevi a vossa reverendíssima acerca dos saltos que se fazem nesta terra, e de maravilha se acha cá escravo que não fosse tomado de salto; e é desta maneira que fazem pazes com os negros para lhe trazerem a vender o que tem, e por engano enchem os navios deles, e fogem com eles; e alguns dizem que o podem fazer por os negros terem já feito mal aos cristãos. (pp. 294-295)

De maravilha se achará cá terra onde os cristãos não fossem causa da guerra e dissenção, e tanto que nesta Bahia, que é tido por um gentio dos piores de todos, se levantou a guerra por cristãos, porque um padre, por lhe um principal destes negros não dar o que lhe pedia, lhe lançou a morte, no que tanto imaginou que morreu, e mandou aos filhos que o vingassem. (p. 295)

Morreu um destes clérigos: e ficou o outro, e prosseguiu o fruto: foram ali ter estes navios que digo, tomaram o padre dentro em um dos navios com outros que com ele vinham, e levantaram as velas: os outros que ficaram em terra vieram em paus a bordo do navio, que levassem embora os negros, e que deixassem o seu padre; e por não quererem os dos navios, tornaram a dizer que, pois levavam o seu padre, que levassem também a eles, e logo os recolheram e os trouxeram, e o padre puseram em terra; e os negros desembarcaram em uma capitania, para venderem alguns deles, e todos se acolheram a igreja, dizendo que eram cristãos, e que sabiam as orações e ajudar a missa, pedindo misericórdia. Não lhe valeu, mas foram tirados e vendidos pelas capitanias desta costa. Agora me dizem que é lá ido o padre a fazer queixumes. Dele poderá saber mais largo o que passa. Agora temos assentado com o governador, que nos mande dar estes negros, para os tornarmos a sua terra e ficar lá Leonardo Nunes para os ensinar. (p. 295)

Estão estes negros mui espantados de nossos ofícios divinos. Estão na igreja sem lhes ninguém ensinar, mais devotos que os nossos cristãos. (p. 300)

2.

Um Diogo Martins Cão, o Matante negro por alcunha, foi o primeiro dos capitães feridos. (p. 60)

E, contudo, vemos por experiência o contrário: porque a mulher branca, de branco pare branco, e de negro mulato; seja quente ou fria a disposição do ventre donde se tira manifestamente, que não está somente no ventre a virtude do grau do frio ou calor necessário; se não na virtude seminária, que depende de ambos os generantes: porque se ambos tem virtude fria, geram branco, se ambos cálida, geram preto, e se um fria, outro cálida, geram mulato de cor entremeia, nem perfeitamente branca, nem preta. (p. 113)

Páginas

Obra 1: 51, 73, 203, 294, 295, 300.
Obra 2: 60, 113.