PITA, Sebastião da Rocha. 1660-1738.

Sobre o autor

Sebastião da Rocha Pita nasceu na cidade da Bahia, em 1660, e morreu no mesmo local, a 2 de novembro de 1738. Graduado mestre em artes no colégio dos jesuítas de sua cidade, Pita seguiu para Portugal, onde se bacharelou em cânones pela Universidade de Coimbra. De volta ao Brasil, dedicou-se à lavoura — nomeadamente, à sua propriedade, na vila de Cachoeira — e às letras. Foi coronel do regimento privilegiado das ordenanças da Bahia, fidalgo da casa real e cavaleiro professo da ordem de Cristo.

Obra(s)

Historia da America Portugueza, desde o anno de mil e quinhentos do seu descobrimento, até o de mil setecentos e vinte e quatro. Offerecida A Magestade Augusta DelRey D. João V. Nosso Senhor, Composta Por Sebastião da Rocha Pitta Fidalgo da Casa de Sua Magestade, Cavalleiro Professo da Ordem de Christo, Coronel do Regimento da Infanteria da Ordenança da Cidade da Bahia, e dos Privilegiados Della, e Academico Supranumerario da Academia Real da Historia Portugueza. Lisboa Occidental: Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, Impressor da Academia Real, M. DCC. XXX.

Menções ao negro e ao escravo

Foi matéria digna de reflexão, que deste contágio não enfermaram negros, mulatos, índios, nem mesclados, assim na Bahia, como em Pernambuco; parece que para aqueles viventes compostos humanos não trouxera forças, ou jurisdições o mal; poderia haver neles qualidade secreta, senão foi superior. (p. 434)

Governava a província de Pernambuco Caetano de Mello de Castro, e sendo quase irremediável o dano, que aqueles moradores experimentavam dos negros dos Palmares, (cuja extinção era empresa já reputada por tão difícil, que muitos dos seus antecessores no posto a não intentaram) ele a empreendeu com valor, e a conseguiu com fortuna. (p. 471)

Quando a província de Pernambuco estava tiranizada, e possuída dos holandeses, se congregaram e uniram quase quarenta negros do gentio de Guiné, de vários engenhos da vila do Porto do Calvo, dispondo fugirem aos senhores, de quem eram escravos, não por tiranias que neles experimentassem, mas por apetecerem viver isentos de qualquer domínio. Com segredo (entre esta nação, e tanto número de pessoas, poucas vezes visto) dispuseram a fuga e a executaram, levando consigo algumas escravas, esposas e concubinas, também cumplices no delito da ausência, muitas armas diferentes, umas que adquiriram, e outras que roubaram a seus donos na ocasião em que fugiram. (p. 472)

Nos primeiros anos este fogo, que se ia sustentando em pequenas brazas, para depois crescer a grande incêndio, não causou dano público, mas só o particular da perda dos escravos, que seus donos não poderão descobrir, por não saberem a parte em que se alojavam daqueles espessos e dilatados matos, onde ainda então os fugitivos só atendiam a sustentar-se das caças e frutas silvestres do terreno inculto, e não saiam dele mais que a levar a furto de algumas fazendas menos apartadas as plantas de mandioca e outras sementeiras, para darem princípio às suas lavouras, tomando-as com força, se achavam resistência, e sem ela, senão encontravam oposição; porém era já notório este receptáculo por todas aquelas partes, de donde o iam buscar outros muitos negros, e alguns mulatos cumplices em delitos domésticos e públicos, fugindo ao castigo dos senhores e da justiça, e os recebiam os negros dos Palmares, pondo-os no seu domínio. (pp. 473)

Crescia o poder dos negros com estes socorros dos fugitivos, que se lhes iam juntando, para fazerem aos povos de Pernambuco os danos que experimentaram os de Roma na guerra servil, quando juntando-se poucos escravos gladiadores, e agregando a si muitos homens facinorosos, causaram tantos estragos na própria cabeça daquela nobilíssima república. Além dos filhos, que lhe nasciam, entendendo os negros que para maior propagação e aumento do povo que fundavam, lhes eram precisas mais mulheres, trataram de as haver sem a indústria, com que os romanos as tomaram aos sabinos, mas só com a força, entrando pelas fazendas e casas dos moradores daquelas vilas, povoações e distritos, e levando negras e mulatas do serviço doméstico e das lavouras. Roubavam aos senhores delas os vestidos, roupas e armas, que lhes achavam ameaçando violar-lhes as mulheres e filhas, se as não remiam a dinheiro ou outras dádivas que se lhes ofertavam prontamente, desprezando sempre os portugueses o cabedal pela honra, a qual lhes ficava intacta a indultos da moeda e da nobreza, que não deixavam de respeitar nas pessoas em quem a reconheciam, tanto que ficavam aproveitados dos despojos que colhiam e com eles voltavam ricos para o seu país. (pp. 473-474)

Aumentados com o tempo em número de gente, foram penetrando mais os sertões, e descobertos amplíssimos campos, os repartiram pelas famílias, que pondo-os em cultura, faziam mais rica e dilatada a sua jurisdição; e sem a especulação de Aristóteles e de Platão nas suas Repúblicas escritas, nem as leis promulgadas na de Atenas por Solon, na de Lacedemônia, ou Esparta por Licurgo, na de Creta ou Candia por Minos, e nas de Roma, Cartago e Egito por Numa, Charonda e Trismigistro. (p. 474)

Formaram nos Palmares uma República rústica, e a seu modo bem ordenada. Elegiam por seu príncipe, com o nome de Zombi (que no seu idioma vale o mesmo que diabo) um dos seus varões mais justos e alentados; e posto que esta superioridade era eletiva, lhe durava por toda a vida, e tinham acesso a ela os negros, mulatos e mestiços (isto é, filhos de mulato e negra) de mais reto procedimento, de maior valor e experiência, e não se conta, nem se sabe, que entre eles houvessem parcialidades por competências de merecimento ou ambição de domínio, nem que matassem um para entronizar outro, concorrendo todos ao eleito com obediência e união; polos em que se sustentam os impérios. (pp. 474-475)

Tinham outros magistrados de justiça e milícia, com os nomes das suas terras. Eram entre eles delitos castigados inviolavelmente com pena de morte o homicídio, o adultério, e o roubo, porque o mesmo, que com os estranhos lhes era lícito, se lhes proibia entre os naturais. Aos escravos, que por vontade se lhes iam juntar, concediam viverem em liberdade; os que tomavam por força, ficavam cativos, e podiam ser vendidos. Tinham também pena capital aqueles que havendo ido para o seu poder voluntário, intentassem tornar para seus senhores. Com menor rigor castigavam aos que sendo levados por força, tivessem o mesmo impulso. Destes seus estatutos e leis eram as ordenações e volumes as suas memórias e tradições conservadas de pais a filhos, vivendo já no tempo em que lhe fizemos a guerra os segundos e terceiros netos dos primeiros rebeldes, conservando-se nesta forma em temor, e aparente justiça. (p. 475)
Alguns moradores daqueles distritos, por temerem os danos que recebiam e segurarem as suas casas, famílias e lavouras dos males que os negros dos Palmares lhes causavam, tinham com eles secreta confederação, dando-lhes armas, pólvora e balas, roupas, fazendas de Europa e regalos de Portugal, pelo ouro, prata e dinheiro que traziam do que roubavam, e alguns víveres dos que nos seus campos colhiam, sem atenção as gravíssimas penas, em que incorriam, porque o perigo presente os fazia esquecer do castigo futuro; e achando-se em várias devassas, que se tiravam culpados deste crime alguns, e por ele punidos, se não escarmentavam os outros, que a todo o risco conservavam estre trato oculto, e em virtude dele ficavam seguras as suas casas, e andavam os seus escravos pelas partes, a que os enviavam com os salvos condutos que recebiam dos inimigos em certos sinais, ou figuras que respeitavam os seus capitães e soldados para os deixarem passar livres. (p. 476)

Do Pinhacô, onde tinha a sua estância, caminhou com toda a sua gente de guerra, que seriam mil homens, e atravessando o Urubâ, quis de caminho dar primeiro vista aos Palmares, por resistar a fortificação dos inimigos, conseguir alguma facção e ganhar a primeira glória, fazendo o ingresso aquela guerra; mas aconteceu-lhe o contrário do que imaginava, porque alojando nos Garanhûs de fronte da fortificação, ao terceiro dia da sua assistência, andando os seus soldados divertidos em colher os frutos de um bananal dos negros, saiu da fortificação um grande esquadrão deles, e acometendo aos paulistas, que se ordenaram naquele repente com a melhor forma que puderam, se travou uma batalha em que morreram de ambas as partes mais de quatrocentas pessoas, ficando feridas outras tantas; e seria maior o estrago dos paulistas, se reconhecendo desigual o seu partido ao número dos inimigos, se não foram com muito valor e disposição retirando para o Porto do Calvo, onde acharão o exército que o governador tinha enviado aquela Vila. (pp. 478-479)
De todo o exército nomeou por cabo, com o posto de capitão mor, a Bernardo Vieira de Mello, que da sua fazenda das Pindobas conduzindo muita gente armada, se fora oferecer ao governador para aquela campanha e conquista. Era homem nobre e valoroso, experimentado na guerra dos negros, havendo logrado algum tempo antes o feliz sucesso de um choque, em que degolou e cativou um grande troco deles em uma das estâncias em que estivera, para reprimir as suas invasões; causas pelas quais Caetano de Mello o elegeu para governar aquela empresa. (p. 479)

Estão os Palmares em altura de nove graus do Norte, no terrestre continente das vilas do Porto Calvo e das Alagoas, em quase igual distância de ambas, porém mais próximos a primeira. O nome tiveram depois, que os negros os possuíram pelas muitas palmeiras que lhes plantaram. (p. 480)

Continuando-se por muitos dias os combates, doi faltando aos negros a pólvora que não podia ser muita, pois só tinham a que dos moradores seus confederados alcançaram, antes de se lhe mover a guerra, da qual não tendo tão antecipada notícia, como lhe era precisa, para recolherem os mantimentos necessários a um dilatado cerco, já nele experimentavam também diminuição, mas não na sua constância, que se aumentava com a porfia do nosso exército, sobre o qual disparavam tantas nuvens de flechas, e tal chuveiro de armas arrojadiças, que faziam parecer escusadas as balas. (pp. 482-483)

Iam afrouxando os negros, faltos já das armas que lançavam, e dos mantimentos que consumiam, não podendo recorrer aos campos, que eram os seus celeiros para levarem os de que mais ordinariamente se sustentavam, e só se mantinham na esperança de que o nosso exército não podia permanecer muito tempo no assédio, pela diminuição da gente em que se achava, e pelos descômodos que padecia, pouco costumados os homens, depois da guerra dos holandeses, a resistir as inclemências do tempo nas campanhas, além de lhes ficarem mui distantes as conduções dos víveres, de que já entendiam que experimentavam falta, discursos em que fundavam a suposição de que se lhes levantaria brevemente o sítio; porém logo o sucesso, que não premeditaram, lhes mostrou o contrário do que presumiram. (pp. 483-484)

Da sua eminência, ou atalaia, viram irem-se cobrindo os campos de gado maior e menor de carros e cargas de cavalos, que das vilas do Penedo, das Alagoas, e da povoação de S. Miguel caminhavam ao nosso exército em um grandíssimo comboio, que lhes chegava de que começaram a inferir os negros a nossa persistência, e a sua ruína, e totalmente desanimados, se empregavam mais no seu assombro, que na sua defesa, quando o nosso exército com o socorro dos mantimentos e de alguma gente, que os acompanhava, sepunha a bater-lhes as portas da estacada com novo alento, e tal fortuna que a força de machados e braços lhe abriu o sargento mor Sebastião Dias a que lhe tocara, ao tempo que o capitão mor Bernardo Vieira rompia a em que estava, de que fez aviso ao mestre de campo dos paulistas, que residindo na outra muito distante, acudiu com incrível presteza a ser lhe companheiro no perigo e na glória. (pp. 484-485)

Entraram juntos, encontrando alguma resistência nos negros, inferior a que presumiram, porque o seu príncipe Zombi, com os mais esforçados guerreiros, e leais súditos, querendo obviar o ficarem cativos da nossa gente, e desprezando o morrerem ao nosso ferro, subiram a sua grande eminência, e voluntariamente se despenharam e com aquele gênero de morte mostraram não amar a vida na escravidão, e não querer perde-la aos nossos golpes. (p. 485)

Foram levados ao Recife os negros; e tirando-se deles os quintos pertencentes a ElRey, os mais ficaram tocando aos cabos e soldados, conforme as prezas que fizeram quando entraram na sua fortificação. Todos os que eram capazes de fugir e se rebelar, os transportaram para as outras províncias do Brasil, e alguns se remeterão a Portugal. As mulheres e crianças, pelo sexo e pela idade livres daquela suspeita, ficaram em Pernambuco. (p. 486)

Este fim tão útil, como glorioso, teve a guerra que fizemos aos negros dos palmares, devendo-se não só o impulso da empresa, mas os meios da execução ao valor e zelo, com que Caetano de Mello de Castro governou a província de Pernambuco, de cujo emprego por este e outros serviços obrados na etiópia, sendo general dos rios de Sena, saiu com tantos créditos e aplausos, que lhe grandearam o superior lugar de Vice-Rei da índia; cargo que exerceu com grandes acertos, deixando em todas as referidas partes uma ilustra memória. (p. 486)

Quem tem poucos negros, e não lavra em terras próprias, os manda faiscar, isto é, apanhar pelos campos ou montes ouro, do que cai aos que o vão torar. (p. 495)

Mas não é este só o dano que padece o Brasil; outro maior mal lhe ameaça a última ruína, porque comprando as pessoas que vão para as Minas do Sul, e outras que delas vem a este fim, por excessivos preços escravos do gentio de Guiné, que se conduzem da Costa de África, e carecendo de muitos as fábricas das canas e dos engenhos, se foi diminuindo a cultura do açúcar de forma que alguns dos senhores destas propriedades, não tendo negros com que as beneficiar, nem posses para os comprar pelo grande valor em que estão, as deixaram precisamente, e só as conservam alguns poderosos, que se acham com maiores cabedais. (p. 521)

Enviou vários cabos e soldados aos lugares por donde se faz a jornada para as Minas do Sul, os quais tomaram muitos comboios de negros, e outros gêneros que importaram grossas somas à Fazenda Real, posto que os mais escapavam, não sendo a diligência dos homens menos poderosa para reparar ou evitar os danos públicos, que a sua indústria em solicitar os interesses particulares; porque meditando em todos os meios das suas conveniências, frustram as diligências dos seus superiores, sem receio da perda, nem temor do castigo. (p. 522-523)

Mandou botar cordão à mata, e logo os paulistas disparando de cima das árvores as escopetas, mataram a um valoroso negro, e feriram duas pessoas de suposição que estavam junto a Bento de Amaral, e outras muitas das principais que iam no destacamento, sem deles poderem ser ofendidos pela espessura do mato que os cobria; e porque os forasteiros só pretendiam tirar-lhes as armas, e não as vidas, mandaram os feridos para o arraial, de donde saíram, persistindo constantes os mais no sítio uma noite, e um dia no qual lhes enviaram os paulistas um Bolantim com bandeira branca pedindo paz e prometendo entregar as armas, se lhes dessem bom quartel. (p. 546)

Mandou botar cordão a mata, e logo os paulistas disparando de cima das árvores as escopetas, mataram a um valoroso negro e feriram duas pessoas de suposição, que estavam junto a Bento de Amaral e outras muitas das principais que iam no destacamento, sem dele poderem ser ofendidos pela espessura do mato, que os cobria; e porque os forasteiros só pretendiam tirar-lhes as armas, e não as vidas, mandaram os feridos para o Arraial, de donde saíram, persistindo constantes os mais no sítio uma noite e um dia, no qual lhes enviaram os paulistas um Bolantim com bandeira branca, pedindo paz, e prometendo entregar as armas, se lhes dessem bom quartel. (p. 546)

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434, 471, 472, 473, 474, 475, 476, 478, 479, 480, 482, 483, 484, 485, 486, 495, 521, 522, 523, 546.