PIMENTA, Miguel Dias.

Sobre o autor

Pouco conseguimos apurar sobre o médico bracarense Miguel Dias Pimenta, salvo que exerceu a medicina em Pernambuco.

Obra(s)

Noticias do que he o Achaque do Bicho, Diffiniçam do seu crestameto, subimento corrupção, finaes, & cura até, o quinto grão, ou intensão delle, suas differenças, & coplicações, com que se ajunta. Por Miguel Dias Pimentas, Familiar do S. Officio, & residente no Arrecife de Pernambuco. Lisboa: Na Officina de Miguel Manescal, 1707.

Menções ao negro e ao escravo

Todo o sujeito que for de corpo afeminado, cor alvarinha, de fraca compleição, e de estômago fraco, o que destes for sanguinho com mais repetição, o melancólico mais que o fleumático, em os das praças e recolhidos, e mui pouco nos do campo e trabalhados, os que são de condição robusta, fortes e sobre o trigueiro, negros, mulatos e mulheres mui poucas vezes lhe dá este achaque, e quando nestes dá, é mui rijamente, e tal é as vezes a robusteza do sujeito, que dando-lhe o achaque, como nele não faz apreensão, (como também o fará mui poucas vezes nas regiões frias, salvo de verão) por si se vai embora, como já vi sem lhe fazer cura alguma, por se não saber o que era, em cujo caso ninguém se fie. (pp. 52-53)

Principiado que seja o achaque do bicho, como do primeiro e segundo grau fica notado, como para passar para o terceiro grau, lhe falte a atividade malignante no calor ou a força para formar a sequidão para seguir seu caminho, muda de substância, cedendo a sua principal para outros vários achaques, donde este chamado dos vulgares impalala é o mais comum, principalmente para aqueles em quem o achaque do bicho não faz apreensão por robustos, quais são os sujeitos trigueiros, mulatos, e ordinariamente nos negros que vem de Angola, no que chegou abanzar, esteve doente, ou por acaso bebeu alguma água salgada, (o pior para este achaque ser mais perigoso) ou totalmente emperrou, dizendo que quer morrer. (pp. 71-72)

[...] ficará mui fácil de entender o recozimento que fazem os humores a crimoniosos ou envenenados, retidos nas tripas ou ventre inferior, a quem tivera visto, e observado o sempre notável, circuntancioso e apressadíssimo contágio venéfico, que principiou em Pernambuco a 28 de novembro de 685 e desde 25 de dezembro até dez de janeiro de 686 enterrou no Arrecife e Santo Antônio, perto de seiscentas pessoas, todos homens brancos, obra de uma dúzia de mulatos, mui poucas mulheres, poucos negros e menos meninos de sorte que no mais robusto e forte que chegou abazar, ou ter pesar nele netrou mais depressa o achaque, não durando três dias. (p. 94)

[...] nos brancos são sobre o vermelho fusco, nos negros sobre o pardo branco, nos mulatos sobre o branco fusco, a que o vulgo chama panos; estes nascem conforme o fígado o ordena, e por si se vão. (p. 170)

Páginas

52, 53, 71, 72, 94, 170.