RESENDE, Garcia de. (1470? – 1536).

Sobre o autor

Tido como um homem de muitos talentos (cronista, poeta, músico, desenhista e arquiteto), desde muito cedo, Garcia de Resende foi admitido no serviço da Casa Real Portuguesa. Atuou como moço na câmara de D. João, depois na do Príncipe D. Afonso e, após a morte deste, D. João II – personagem central da crônica aqui arrolada, que se encarregou, desde o reinado de seu pai, da expansão ultramarina, em particular, já em seu reinado, da conquista de toda a costa ocidental africana e da fundação do Forte de São Jorge da Mina - o nomeou como seu secretário particular. Após o cumprimento de uma missão diplomática em Roma, por mandado do rei D. Manuel, em 1514, retornou a Lisboa e transferiu-se para suas propriedades em Évora, onde, duas décadas mais tarde, faleceu.

Obra(s)

Chronica dos valerosos e insignes feytos del Rey Dom Ioam II de gloriosa memoria, em que se refere sua vida, suas virtudes, seu magnanimo esforço, excellentes costumes, & seu christianissimo zelo.

Menções ao negro e ao escravo

“No ano passado de mil e quatrocentos e oitenta e sete, estando Gonçalo Coelho cavaleiro da casa del Rey na boca do rio de Cenaga no Reyno de Ielofo em Guiné resgatando, Bemohi, Príncipe negro, que então com muita prosperidade, e grande poder governava o dito Reyno de Ielofo, sendo por suas línguas informado das muitas virtudes, perfeições e grandezas del Rey, desejou de o servir; e para começo lhe mandou pelo dito Gonçalo Coelho um rico presente d’ouro, e cem escravos, todos mancebos, e bem dispostos, e assim algumas outras coisas de sua terra (p. 34)”.

Também nas páginas 49, 75 e 82 os escravos seguem citados como mercadorias. Abaixo, uma curiosa citação que envolve negros, escravos e cuidados com a saúde em Lisboa.

“CAP. CXIX. -
De como el Rey despejou a cidade e mandou meter nela muito gado.
Sendo já feitas muitas e grandes despesas para as ditas festas, e as mais principais por a muita gente que vinha de muitas partes, e de Lisboa, onde morriam, em Évora houve rebates de peste, de que el Rey foi muito triste; porque se mais mal fosse, as festas se não poderiam fazer com aquela perfeição que ele tinha ordenado. E por ver se poderia atalhar isto, com que a todos tanto pesava, acordou com [o] conselho dos físicos, que antes do antrelunho [interlúnio] de Setembro, em que os ares corruptos tinham mais força, toda a gente da Cidade, e da Corte se saísse dela, como logo saiu, pelo espaço de quinze dias. Nos quais el Rey andou fora por Alcáçovas e Viana, e esteve na quinta da Oliveira, onde a primeira vez justou; e a gente toda por quintas, herdades, e hortas, e em tendas no campo. E a Cidade foi cheia de infindo gado vacum sem conto, q de toda a comarca veio, e por mandado del Rey aí foi trazido [...] E acabado os quinze dias, o gado todo se levou, e a Cidade foi toda muito limpa, e todas as ruas e casas defumadas e caiadas antes del Rey entrar nela. É assim no antrelunho de Outubro, depois da gente estar dentro, el Rey mandou que todo os escravos e negros, que na Cidade havia, se saíssem fora por dez dias, sob pena de se perderem, e assim se fez. E por essas grandes diligencias, e principalmente pela piedade de Deus, a quem se fizeram juntamente com isso muitas devoções e esmolas, a Cidade ficou de todo sã, deque el Rey, e todos foram muito alegres, por poder fazer nela o que ele havia ordenado" (p 50, verso).

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