PEREIRA, Nuno Marques. 1652-1731.

Sobre o autor

Muito pouco se sabe sobre o padre Nuno Marques Pereira, nascido possivelmente em Cairú, nas proximidades de Salvador, em 1652, e morto na cidade de Lisboa, por volta de 1731. Crê-se que tenha cursado direito na Universidade de Coimbra.

Obra(s)

1. Compêndio Narrativo do Peregrino da América 6ª Edição completada com a 2ª Parte, até agora inédita, acompanhada de notas e estudos de Varnhagen, Leite de Vasconcelos, Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Pedro Calmon, em dois volumes. Volume II. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1939.

2. Compendio narrativo do peregrino da America em que se tratam varios discursos Espirituaes, e moraes, com muitas advertencias, e documentos contra os abusos, que se achão introdusidos pela malicia diabólica no Estado do Brasil. Dedicado à Virgem, da Vitória, emperatris do ceo, rainha do mundo, e Senhora da Piedade, Mãy de Deos. Autor Nuno Marques Pereira. Lisboa Occidental, Na Officina de Antônio Vicente da Silva. Anno de M.DCC.LXXVIII

Menções ao negro e ao escravo

1.

E seguindo a minha viagem, fui descobrindo verdes e copados arvoredos [...]. Ali almocei, e depois de ter gozado da amenidade do sítio ouvi tropel e brevemente chegou um galhardo mancebo, mui bem vestido, montado a cavalo, com quatro escravos, dois armados e dois com cargas [...] (p. 33)

Fomo-nos agasalhando dentro do camarote todos três passageiros com o mestre da sumaca; seriam quatro para as cinco horas da manhã quando ouvimos a um marinheiro da embarcação chamar aos escravos e mais companheiros da obrigação da embarcação que acudissem a cobrir ao fogão e as mais coisas, para que se não molhassem da chuva. (pp. 74-75)

Tinha este boticário um escravo, que quando saia fora de casa, o deixava na botica vendendo medicamentos, o qual não sabia ler; chegou um moleque à botica com uma receita, a tempo que me achava eu presente: chamou o preto boticário a um rapaz seu vizinho que lhe costumava ler as receitas, a qual vinha escrita naquela forma que costuma escrever os médicos e cirurgiões [...] (p. 89)

E como o vi prostrado por terra, o considerei escarmento da soberba, horror da morte, desengano da vida. E saindo da casa me fui recolher a um convento, de donde despachei a um escravo ladino, que em minha companhia trazia, para que com toda a brevidade fosse fazer presente a meu tio o sucesso que me havia acontecido, e que me mandasse por daquele lugar mais distante, antes que a justiça me tomasse o passo. (p. 156)

Seriam sete horas da noite, quando chegou um escravo ladino da casa de meu tio com a mina roupa dentro de um baú, e cinquenta mil réis. Prontamente me pus a caminho com o escravo; andamos mais de duas léguas, até que chegamos a casa de um lavrador muito amigo de meu tio, a quem fiz presente o caso que me havia acontecido; deu-me o lavrador um bom cavalo, e matalotagem; e pondo-me outra vez de marcha, toda aquela noite andamos; e assim como amanheceu nos recolhemos ao interior de uma mata onde passei até meio dia, por descansar do desvelo da noite, e do meio dia para a tarde me tornei a por a caminho, retirando-me sempre da estrada por não ser visto de pessoa que de mim e do escravo desse notícia. (pp. 156-157)

E como o mercador tivesse uma embarcação que navegava para a Costa da Mina, lhe pedi praça nela, que mui liberalmente me deu, onde me embarquei com uma boa carregação, e dentro de cinco meses voltei ao porto da cidade da Bahia, com dezesseis escravos, com os quais e alguma mais fazenda, fiz um comboio e parti para as Minas do ouro. (p. 157)

[...] foi-se valendo de mim o queixoso, até que se me pôs no regaço; levantaram-se as escravas que no estrado estavam cozendo e fazendo rendas e pegando no moleque que trazia a faca, o deitaram pela porta fora; o outro, que junto a mim estava, o mandei por com toda a segurança na porta de seu senhor, por me dizer que era escravo do vizinho mineiro. (p. 164)

Chegou-se o tempo consignado, quando estando eu na janela, chegou o mineiro com quatro escravos mui bem armados; pus-me na rua (que já me pudera então considerar a rua da Amargura) e com toda a pressa e cautela chegamos ao porto da cidade [...] (pp. 167-168)

Quando olhando eu para a cidade, vi as casas onde nasci, e me havia criado, por estarem à vista do mar; e considerando que de um golpe deixava meus pais, parentes e amigos e mais escravos, que me haviam assistido; finalmente a pátria para nunca mais a tornar a ver, começaram a correr de meus olhos desatadas lágrimas que suponho, sem dúvida, que se por aquele meio se não desafogara o meu coração, acabara a vida de um golpe. (p. 168)

Chegamos ao em fim ao porto onde ia dirigida a embarcação; acordou o mineiro, saltamos em terra, fez desembarcar por um escravo uma canastra, e levando-me desviada do porto e estrada, me fez entrar em uma gruta de mato, e tirando por uma tesoura, com ela me cortou duas tranças de cabelos, que em uma fita de prata eu levava entrançados; e fazendo tiro com elas, em cima de uma árvore onde ficaram pendentes. (pp. 167-168)

Vede agora o como poderia eu ficar à vista de uma tão grande traição que comigo havia obrado o traidor do mineiro, trazendo-me enganada de casa de meus pais com a promessa de se desposar comigo, sendo casado em Portugal; fazendo-se pessoa nobre, sendo filho de um humilde oficial, não possuindo mais bens que três escravos que inda esses os estava devendo a um seu patrício, por lhe haver comprado fiados, como o soube depois de estar em sua companhia, e dos três escravos, uma fêmea, que até essa levava para a lavoura, depois que me trouxe para a casa, tratando-me como serva no serviço de seu uso e ministério. (pp. 171- 172)

Perguntou-me o mancebo, que lhe dissesse a que horas costumava sair para sua lavoura? Respondi-lhe que das seis para as sete da manhã. Pois, senhora, (me disse o mancebo) podeis estar pronta e aparelhada, que das oito para as nove horas vos prometo mandar aqui buscar por um escravo com um cavalo, para vos ir levar a casa de um meu amigo que dista daqui oito légoas onde podereis estar segura, sem temor de que sejais ofendida desse vosso contrário, pelo que me tendes manifestado. (p. 172)

Houve um clérigo, morador na ilha de Itaparica, muito rico, onde tinha uma grande fazenda com muitos escravos. (p. 265)

Houve um clérigo, morador na ilha de Itaparica, muito rico, onde tinha uma grande fazenda com muitos escravos. Este sacerdote, por se considerar culpado pelo seu mau viver, sabendo que tinha chegado um arcebispo a cidade da Bahia, e temendo-se de ser castigado pelo prelado, se resolveu ir pedir a roupeta de Santo Inácio, no Colégio dos Padres da Companhia, e ofereceu aos padres a fazenda que possuía. Com efeito, o aceitaram os religiosos na consideração que era vocação de Deus, tomaram logo posse da fazenda, e trataram de evitar erros, que acharam nos escravos, por estarem alguns amancebados, e outros em várias culpas e vícios por falta de doutrina ; desterrando a uns e vendendo a outros por evitarem semelhantes erros e pecados, em que os acharam compreendidos. (p. 265)

2.

E eu digo, que não só contamina este vício ou mal ao senhor da cada, mas também a mulher, aos filhos e aos mesmos escravos; por ser a morada desta peste infernal em cada dos ricos, e muitas vezes sobre aos palácios. (p. 19)

Os escravos não havia quem os acalentasse com saudosas lágrimas e alaridos em som de amor, pelo muito que este zeloso prelado tinha advertido a seus senhores o como os deviam de tratar. (p. 59)

Já os escravos se retiraram do trabalho pelo intenso do calor. (p. 68)

Senhor, (me disse o morador), já que também me tendes explicado o que eu tanto ignorava, e de que não fazia caso; permiti-me mandar chamar estes escravos a vossa presença: que o demais, com o favor de Deus, em quem confio e adoro, eu o evitarei. (p. 118)

Aqui se começou a atemorizar o dono da casa, e os escravos a encher-se de temor e horror. Ao que acudi eu, dizendo que não temessem ao inimigo, posto que o tivessem a vista: porque com ajuda de Deus, em que eu tanto confiava, havia ele de sair destruído; pois nada pode sem Deus permitir. (p. 119)

Ali passei todo aquele dia, a rogo, e persuasão do morador em várias conversações, todas dirigidas a bom fim, e a propósito deste primeiro mandamento; dizendo-lhe o quanto lhe importava ocupar aos seus escravos e família em os exercitar na doutrina cristã e livrá-los de ruins companhias [...] (p. 123)

E como já estava quase acabada a tarefa; disse ele aos escravos que como findassem a obra se recolhessem. (p. 131)

Porém, só direi a bem da República, que se eu tivera voto em capítulo, havia de mandar que todas as vezes que se achasse casa alugada a escravo, a perdesse seu dono para a coroa; ou para aquilo que se aplicasse para mais serviço de Deus. (p. 158)

Pois com que razão se queixa um homem destes, que assim obra, de que lhe fujam os escravos e lhe morram, faltando-lhes ele com o necessário para alimento da vida? (p. 159)

Para apresto da viagem, e fazer uma carregação, pedi duzentos mil reis a risco: e depois de ter feito um bom negócio em escravos, me roubaram uns piratas. (p. 425)

Páginas

Obra 1: 33, 74, 75, 89, 156, 157, 164, 168, 171, 172, 265.
Obra 2: 19, 59, 68, 118, 119, 123, 131, 158, 159, 425.