CASTRO, Bernardo Pereira de Barredo e.

Sobre o autor

O militar Bernardo Pereira de Berredo e Castro nasceu em Beja (Portugal), em data desconhecida, e morreu em Lisboa. Foi oficial de cavalaria, combatendo na guerra da Catalunha, em 1710, e, posteriormente, capitão-geral de Mazagão (atual El Jadida, no Marrocos) e governador do Maranhão (1718-1722).

Obra(s)

Annaes históricos do Estado do Maranhão, em que se dá noticia do seu descobrimento, e tudo o mais que nelle tem sucedido desde o anno em que foy descuberto até o de 1718: Offerecidos ao Augustissimo monarca D. João V. Nosso Senhor. Escritos por Bernardo Pereira de Berredo do Conselho de S. Magestade, Governador, e Capitão General, que foy do mesmo Estado, e do Mazagão. Lisboa: Officina de Francisco Luiz Ameno, Impressor da Congregação Cameraria da Santa Igreja de Lisboa, 1749.

Menções ao negro e ao escravo

Não respondeu cabalmente o sucesso às esperanças de Antônio Moniz porque avançando trinta soldados, logo tomou terra para o descobrimento da campanha, se encontraram dentro de poucas horas com quarenta holandeses que tinham saído da cidade na mesma diligência, informado já o seu governador da desgraça do Itapecuru por notícias de um negro, que sem alguma nossa se salvou a nado no ardor da peleja: porém como estas se comunicaram igualmente aos moradores portugueses, já algum deles (mais venturosos que duzentos, de que fez logo presa a tirania do mesmo comandante) se haviam unido à nossa partida, quando se bateu com a dos inimigos que mais oprimidos do valor, do que do número, ficaram todos degolados. (p. 356)

Neste mesmo tempo tinha acrescentado o número dos presos o padre Bartolomeu Galvão da Rocha, e um Tangerino do hábito de Cristo, que se chamava N. Afonso; o qual declarou que fora convidado a casa do eleito juíz do juiz do povo, onde achara Simão da Costa de Sousa, cavaleiro da Ordem de Santiago e o mesmo clérigo Bartolomeu Galvão com outras pessoas que ele não conhecera, por ter ainda pouca assistência daquela cidade: porém que entre todos vendo também um negro a que davam o nome de Antônio de França, deixara logo a tal assembleia, totalmente ignorante das negociações que nela se tratavam. (pp. 571-572)
Havia concebido o ministério de Portugal que os interesses do Maranhão se não podiam adiantar, sem que as suas drogas se encaminhassem a uma só mão, que fizesse crescer a reputação delas; e para segurar a felicidade deste projeto, ajustou um assento com Pedro Alvares Caldas, e outros negociantes de grossos cabedais pelo longo termo de vinte anos, que não só estancava todas as do país, mas também as fazendas do reino de qualquer qualidade, e negros de toda a Costa de África, que passassem a ele, ficando somente permitida a navegação de todo o comércio aos sócios nesta Companhia de que era caixa e administrador um Pascoal Pereira Jansem, que além de ser homem de muita inteligência no trato mercantil, se tinha criado no mesmo Estado do Maranhão. (pp. 583-584)

Contudo sem alteração, que se temesse como perigosa, entrou o novo ano de 1683; mas já se ouviam os clamores dos povos pela escandalosa contravenção das condições do assento, porque a ambição dos contratadores, para melhor encher as suas medidas, não vendia gênero pela pauta dos preços que se não achasse falsificado com gravíssimo dano dos compradores, e de quinhentos negros da Costa de África, pela taxa ajustada de cem mil reis cada cabeça que haviam prometido meter todos os anos em uma e outra capitania, caminhando já para o segundo, nenhum até então se tinha visto nelas o que também não era de menor prejuízo; porém um e outro penetrando mais os moradores do Pará pelo melhor vulto dos interesses, articulavam eles estas mesmas queixas com tal comedimento, que só esperavam o remédio de todas, no que lhes aplicasse a piedade do príncipe cabalmente informado; o que não sucedia nos orgulhosos ânimos do Maranhão, como veremos no seguinte ano; porque na duração deste presente se não encontra outra alguma memória que possa merecê-la nas recomendações da posteridade. (p. 586)

Contudo, já experimentava perigosas faltas no respeito público, quando foi socorrido de um novo acidente com grande fortuna; porque entrando naquela baía um navio do estanco com muitas fazendas e duzentos negros de Guiné, ainda sem notícia da comoção do povo, alvoroçado este com os interesses que se lhe prometiam na repartição de toda a carga, como boa preza dos contratadores que se reputavam por inimigos, ratificou a sua obstinação já menos discursivo, do que ambicioso; mas por mais que quis o Beckman lisonjear a sua cobiça com a injustiça posse das suas esperanças, vencido ainda do parecer oposto dos menos orgulhosos, se entregou tudo aos administradores do contrato com ordem só que sem que precedesse a dos governadores, nada se venderia: e chegando logo outra embarcação de inferior lote, também dos assentistas se praticou o mesmo com a sua carga, que era dos mesmos gêneros. (pp. 608-609)

Não tardou muito a permissão da venda com a repartição dos negros de Guiné na forma do contrato; mas os governadores dando a entender nela a mais reta justiça distributiva, concebeu o povo do seu procedimento conceito tão contrário, que para o sossegar, já pouco menos comovido, necessitou bem o Beckman de toda a sua indústria revestida de zelo: porém, acabando de conhecer as frouxidões da sua autoridade nas particulares atenções dos sediciosos; porque desenganada a sua cegueira, seguiam quase todos o mesmo desatino só como forçados da desesperação em que os tinha posto a do perdão dele. (p. 609)

Páginas

Páginas: 356, 571, 572, 583, 584, 586, 608. 609